sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ESCOLA DO TRABALHO UMA PEDAGOGIA SOCIAL: UMA LEITURA DE M. M. PISTRAK

ESCOLA DO TRABALHO UMA PEDAGOGIA SOCIAL: UMA
LEITURA DE M. M. PISTRAK

Eliseu Santana1
Orientador: André Paulo Castanha2




Pistrak foi um grande educador do povo Russo, e suas obras foram escritas
a partir de sua prática docente e da Militância Socialista. Pouca coisa se sabe
sobre sua biografia, pois suas obras tiveram pouca divulgação no período Stalinista.
O que se sabe é que ele foi militante ao lado de Makarenko e Nadezhda Krupskaya,
a companheira de Lênin, e que juntos participaram da revolução de outubro 1917,
atuando ativamente na implantação da pedagogia Marxista e na construção de uma
educação socialista na Rússia pós-revolução.
O presente trabalho tem por objetivo refletir sobre a sua obra: Fundamentos
da escola do Trabalho: uma pedagogia social, procurando apontar algumas
das idéias centrais desse educador russo, que subsidiaram o projeto socialista
de educação e que por sua vez ainda podem contribuir com o debate sobre o papel
da escola na atualidade.
AS REFLEXÕES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE ESCOLA E TRABALHO
A história tem mostrado que escola sempre esteve a serviço de um regime
social determinado, de forma que ela sempre foi uma arma nas mãos da classe
dirigente, assim uma minoria subordina a maioria aos seus interesses. Para Pistrak, a
escola e a revolução devem caminhar juntas, como uma arma ideológica da revolução,
de modo que haja clareza entre os trabalhadores sobre os interesses dos burgueses
e dos proletários.
Na sua proposta de escola as atividades devem ser realizadas nas oficinas
para desenvolver nos alunos hábitos de trabalho, sua necessidade, e principalmente o
conhecimento das técnicas modernas e da organização do trabalho. Para ele, a escola
de 2º grau deve concentrar na grande industria, pois a escola é quem prepara o
material humano para industria. Segundo Pistrak, “será indispensável o mais intimo
contato entre a escola e a economia, se quisermos ter homens que compreendam
claramente os princípios de nossa obra construtiva, participando ativamente em sua
elaboração e assumindo-a como coisa sua” (2000, p, 83). Para que a educação social
possa atingir seu objetivo é preciso que o administrador, o engenheiro, o contramestre,
o operário, etc, compreendam a importância do trabalho e da escola do trabalho.
Para que possamos fazer uma leitura de sua obra, temos que procurar
entender seu pensamento sua linguagem, no contexto em que foi elaborado. É
preciso compreender o que significaria para ele, e para os demais pedagogos daquele
movimento político-pedagógico, o fato de estar discutindo sobre pedagogia
escolar, em um momento pós-revolucionário, no qual era preciso concentrar todas
as forças para consolidação da revolução. Daí a necessidade da reconstrução das
organizações sociais e do Estado e da luta permanente contra a reação capitalista
mundial e as forças reacionárias internas ao próprio regime.
É neste contexto que podemos entender quando Pistrak define como sendo
os dois aprendizados principais que se deve esperar dos educandos que são: saber
lutar e saber construir, de modo que, a escola do trabalho tem importância fundamental
na relação da escola com a realidade atual, e a auto-organização dos estudantes.
A grande preocupação dele era saber como a escola poderia ajudar a consolidar a
revolução socialista. Para alcançar os objetivos era preciso formar os sujeitos daquele
processo, não no futuro más já no presente. Assim estaria mostrando que as crianças
e jovens tinham um papel de destaque na construção da nova sociedade socialista.
Apresento a seguir algumas questões apontadas por ele, e que servem
com interlocução para nossa prática docente.
PENSAR E FAZER UMA ESCOLA QUE SEJA EDUCADORA DO POVO.
No Processo de transição ocasionado pela revolução de 1917 a
escolarização do povo tornou-se à base das transformações culturais necessárias
para o processo de construção coletiva da nova sociedade. Para ele era um desafio
reconstruir também a escola de modo que ela deixasse de ser um espaço das elites
e passasse a ser um lugar de formação do povo, todo o povo, preparando-o para
uma atuação social mais ativa e crítica.
EDUCAÇÃO É MAIS DO QUE ENSINO.
Para Pistrak era preciso superar a visão de que escola é lugar apenas de
ensino, ou de estudo de conteúdos, por mais revolucionários que eles sejam. É
preciso passar do ensino à educação, dos programas aos planos de vida. De modo
que, trabalho, estudo, atividades culturais e políticas fizessem parte de um mesmo
programa de formação, de forma dinâmica onde a escola se ajustasse conforme as
necessidades dos educandos e dos processos sociais em cada momento.
A VIDA ESCOLAR DEVE ESTAR CENTRADA NA ATIVIDADE PRODUTIVA.
Na medida em que a escola passa a assumir a lógica da vida, e não
apenas uma preparação teórica, era preciso romper com a pedagogia da palavra
centrada no discurso e no repasse de conteúdos (saliva e giz) e passar a uma pedagogia
da ação. Na escola do trabalho as crianças e os jovens se educam produzindo
objetos materiais úteis, e prestando serviços necessários à coletividade.
A ESCOLA PRECISA VINCULAR-SE AO MOVIMENTO SOCIAL E AO MUNDO DE TRABALHO.
Nenhuma escola-laboratório poderá substituir a realidade do dia-a-dia,
por isso, ele destaca o trabalho social da escola e o envolvimento dos estudantes de
mais idade em atividade produtivas da sociedade em geral. A preocupação com a
apropriação da ciência do trabalho e de sua organização, o vinculo da auto-organização
dos educadores na escola com o chamado movimento dos pioneiros, ou com o
movimento da juventude comunista.
A AUTO-ORGANIZAÇÃO DOS EDUCANDOS COMO BASE DO PROCESSO PEDAGÓGICO DA ESCOLA.
Esta era a grande transformação histórica a ser feita na escola: a participação
autônoma, coletiva, ativa e criativa das crianças e dos jovens, de acordo com as
condições de desenvolvimento de cada idade nos processos de estudo, de trabalho
e de gestão da escola. Por auto-organização entende-se a constituição de coletivos
infantis ou juvenis conforme a necessidade de realizar determinadas ações práticas,
que pode começar com a preocupação de garantir a higiene da escola, até a participação
efetiva do Conselho Escolar, ajudando na elaboração do plano de vida da
escola. O grande objetivo pedagógico desta cooperação infantil consciente é efetivamente,
educar para a participação social igualmente ativa. Na organização o educador
tem como função só à de acompanhar, as crianças para que elas possam
assumir-se efetivamente como sujeitos do processo educativo. Assim sendo, o coletivo
infantil não poderia ser algo imposto, mas sim uma construção de baixo para
cima, para que possa produzir o envolvimento real das crianças.
PENSAR UMA MANEIRA DE DESENVOLVER O ENSINO, QUE SEJA COERENTE COM O MÉTODO
DIDÁTICO DE INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE.
Esse método foi chamado por Pistrak de Sistema dos Complexos, na
realidade era mais do que um método de ensino, que compreendia a dimensão de
estudo intimamente ligada ao trabalho técnico, à auto-organização dos educandos,
e ao trabalho social da escola. De modo que, devem organizar o ensino através de
temas socialmente significativos, educando assim os estudantes para uma interpretação
dialética da realidade atual. Para Pistrak, isto não só é possível como também
é necessário encontrar formas de substituir o ensino livre e conteudista, por um
ensino voltado e preocupado com o estudo da realidade e com sua transformação.
SEM TEORIA PEDAGÓGICA REVOLUCIONÁRIA NÃO HÁ PRÁTICA PEDAGÓGICA REVOLUCIONÁRIA.
Segundo Pistrak quem deve construir a nova escola são os educadores,
junto com os educandos e suas comunidades. Por isso, os educadores não podem
ser tratados como meros executores ou seguidores de manuais simplificados. Devem
ser estimulados e preparados para dominar as teorias pedagógicas, que permite
refletir sobre a prática e tomar decisões próprias, construindo e reconstruindo
práticas e métodos de educação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho tem por objetivo refletir sobre nossa prática de educadores.
Pistrak deixa claro que temos responsabilidades humanas e sociais e por isso, também
somos responsáveis com a qualidade efetiva da educação do povo.
A educação é para ele um conjunto de medidas que devem estar relacionadas
com a prática social, não só de conteúdos, mas sim que todo o conteúdo
deve ser elaborado em conjunto com a comunidade e os estudantes. E que os
estudantes possam aprender na prática os conteúdos repassados em salas de aulas.
A escola é a responsável pela formação do cidadão para o trabalho, por
isso, Pistrak critica o sistema de educação burguesa uma vez que não preparava os
jovens para o trabalho e que os conteúdos tinham pouca valia para o dia a dia dos
jovens. Segundo ele, a educação deve ser voltada para o aproveitamento do que de
melhor cada aluno tem e assim aproveitar suas habilidade para determinado conhecimento,
como por exemplo: química, física, biologia, matemática, etc., uma vez
que o sistema de educação antigo só preparava os alunos para ingressar na faculdade.
Logo, aproximadamente 90% dos que concluíam o 2º grau não teriam nenhuma
utilidade prática para seus conhecimentos, já que as universidades não tinham capacidade
de absorver mais que 10% dos que concluíam o 3º ciclo.
A leitura de livros como este nos ajuda repensar o nosso processo educativo,
e dessa forma, lutar pela sua adequação das políticas educacionais a nossa realidade.
REFERÊNCIAS
PISTRAK, M.M. Fundamentos da escola do Trabalho: uma pedagogia social.
São Paulo: Expressão Popular, 2000. (Tradução de Daniel Aarão Filho).
NOTAS
1 Licenciado em Filosofia pela Unioeste e Pós-Graduando em História da Educação
Brasileira, Unioeste – Campus de Cascavel PR.
2 Professor do Colegiado de Pedagogia, membro do HISTEDOPR.

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